Julia Takeda

Amor é outra coisa…

Publicado por: Julia em: 04.03.10

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Tb não escrevi, recebi (e não sei de quem é…) mas é muuuuuito bom! Dei muita risada…

Adorei o “faz brotar outra pessoa”, na verdade faz, né, mesmo não sendo necessariamente feito com amor…

Todo mundo devia fazer sua listinha…

O amor não te faz arder em chamas. O nome disso é combustão instantânea. Amor é outra coisa.
O amor não faz brotar uma nova pessoa dentro de você. O nome disso é gravidez. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa completamente feliz. O nome disso é Prozac. Amor é outra coisa.
O amor não te deixa saltitante. O nome disso é Pogobol. O amor é outra coisa.
O amor não te faz acreditar em falsas promessas. O nome disso é campanha eleitoral. O amor é outra coisa.
O amor não te faz esquecer de tudo. O nome disso é amnésia. Amor é outra coisa.
O amor não te faz perder a articulação das palavras de repente. O nome disso é AVC. O amor é outra coisa.
O amor não te faz sentir borboletas no estômago, o nome disso é fome. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa completamente imóvel. O nome disso é trânsito de São Paulo. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa molinho e manhoso. O nome disso é Rivotril. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa temporariamente cego. O nome disso é spray de pimenta. O amor é outra coisa.
O amor não faz seu mundo girar sem parar. O nome disso é labirintite. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa sem chão, o nome disse é cratera. O amor é outra coisa.
O amor não te deixa quente e te leva pra cama. O nome disso é dengue. O amor é outra coisa.
O amor não retribui suas declarações. O nome disso é restituição de imposto de renda. O amor é outra coisa.
O amor não leva teu café da manhã na cama e ainda dá na boquinha. O nome disso é enfermeira. O amor é outra coisa.
O amor não te faz olhar pro céu e ver tudo colorido. O nome disso é queima de fogos de artifício. O amor é outra coisa.
O amor não te faz ficar simpático e amoroso de repente. O nome disso é Natal. O amor é outra coisa.
O amor não te liberta. O nome disso é ALVARÁ DE SOLTURA. Amor é outra coisa.
O amor não te deixa à mercê da vontade alheia. O nome disso é Boa Noite Cinderela. O amor é outra coisa.
O amor não te faz ver o mundo cor-de-rosa. O nome disso é baitolice. O amor é outra coisa.
O amor não é aquela coisa brega, mas que te remexe todo. O nome disso é Banda Calypso. O amor é outra coisa.
O amor não te dá a chance de mudar o que está diante de você. O nome disso é controle remoto. O amor é outra coisa.
O amor não tira suas defesas. O nome disso é HIV. O amor é outra coisa.
O amor não te pega desprevenido e te impulsiona para frente. O nome disso é topada. O amor é outra coisa.
O amor não faz o coração bater mais rápido. O nome disso é arritmia. O amor é outra coisa.
O amor não faz você dar suspiros. O nome disso é dia de Cosme e Damião. O amor é outra coisa.
O amor não te faz ver tudo com outros olhos. O nome disso é transplante. O amor é outra coisa.

Experiência

Publicado por: Julia em: 04.03.10

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Tb recebi por e-mail de outra amiga querida, é muito bonito…

Experiência

Num processo de seleção, os candidatos deveriam responder a seguinte pergunta: .
“-Você tem experiência?”
A redação abaixo foi desenvolvida por um dos candidatos.

REDAÇÃO VENCEDORA:

Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com ela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista. Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone. Já tomei banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo. Já confundi sentimentos. Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.
Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar, já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas nasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um “para sempre” pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração.
E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita:
“Qual sua experiência?”.
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência, experiência.
Será que ser “plantador de sorrisos” é uma boa experiência?
Não!!! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos!
Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:
- Quem a tem, se a todo momento tudo se renova?

45 lições

Publicado por: Julia em: 04.03.10

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Não escrevi este texto, mas queria ter escrito.

Recebi de uma amiga por e-mail e gostaria de partilhar com as pessoas aqui…

ESCRITO POR REGINA BRETT, CLEAVELAND, OHIO.

“Para celebrar o envelhecer, uma vez eu escrevi 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais requisitada que eu já escrevi.”

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo.
3. A vida é muito curta para perdermos tempo odiando alguém.
4. Seu trabalho não vai cuidar de você quando você adoecer. Seus amigos e seus pais vão. Mantenha contato.
5. Pague suas faturas de cartão de crédito todo mês.
6. Você não tem que vencer todo argumento. Concorde para discordar.
7. Chore com alguém. É mais curador do que chorar sozinho.
8. Está tudo bem em ficar bravo com Deus. Ele agüenta.
9. Poupe para a aposentadoria, começando com seu primeiro salário.
10. Quando se trata de chocolate, resistência é em vão.
11. Sele a paz com seu passado, para que ele não estrague seu presente.
12. Está tudo bem em seus filhos te verem chorar.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que se trata a jornada deles.
14. Se um relacionamento tem que ser um segredo, você não deveria estar nele.
15 Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca.
16. Respire bem fundo. Isso acalma a mente.
17. Se desfaça de tudo que não é útil, bonito e prazeroso.
18. O que não te mata, realmente te torna mais forte.
19. Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas a segunda só depende de você e mais ninguém.
20. Quando se trata de ir atrás do que você ama na vida, não aceite “não” como resposta.
21. Acenda velas, coloque os lençóis bonitos, use a lingerie elegante. Não guarde para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Se prepare bastante; depois, se deixe levar pela maré…
23. Seja excêntrico agora, não espere ficar velho para usar roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém é responsável pela sua felicidade, além de você.
26. Encare cada “chamado” desastre com essas palavras: Em cinco anos, vai importar?
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todos.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo.
31. Indepedentemente de a situação ser boa ou ruim, irá mudar.
32. Não se leve tão a sério. Ninguém mais leva….
33. Acredite em milagres.
34. Deus te ama por causa de quem Ele é, não pelo que vc fez ou deixou de fazer.
35. Não faça auditoria de sua vida. Apareça e faça o melhor dela agora.
36. Envelhecer é melhor do que morrer jovem.
37. Seus filhos só têm uma infância.
38. Tudo o que realmente importa, no final, é que você amou.
39. Vá para a rua todo dia. Milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos jogássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos os de todo mundo, pegaríamos os nossos de volta.
41. Inveja é perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor está por vir.
43. Não importa como vc se sinta, levante, se vista e apareça.
44. Produza.
45. A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente “

A Espera

Publicado por: Julia em: 21.02.10

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Bocejou largamente, espreguiçou todo o corpo e, por fim, se levantou.

Olhou para a sala vazia, o silêncio era concreto.

A TV estava desligada, o computador quieto e o telefone mudo. Sons vinham somente da janela.,

Lá fora havia sinal de vida. Pneus cantando, acelerando, buzinas estridentes, vozes.

Pulou de dentro das cobertas amarfanhadas e despreocupada foi para perto da janela, seu contato com o mundo.
Olhou os prédios calados, altos, imponentes, cobertos de vidro escuro, disfarçavam seu interior, uma realidade que por certo não queria ser vista mas queria descaradamente, ver. Refletiam uma realidade que não era a sua e ironicamente refletiam o céu que não era o real mas o céu por ele refletido, colorido de fumê.

Ao céu verdadeiro restava o recurso de espiar por entre as frestas. A essa hora o azul cinzento se tingia de rosa lavado com pinceladas de laranja. As cores alegres pareciam ressaltar ainda mais a tristeza que essa hora lhe causava.

Por que ela demorava tanto?
Olhou a rua inundada de carros e ônibus, caixas e caixotes brancos, cinzas, pretos, às vezes uns vermelhos e azuis, fumacentos e nervosos, moviam para o mesmo lado, colados uns nos outros, pareciam se detestar, mas ao certo se gostavam pois não se largavam. Seguiam a vagarosos pela rua e desapareciam. Atrás viriam outros.
Olhou o grande gramado abaixo. Verde, bem verde, um carpete meticulosamente aparado, respingado aqui e ali de cores vivas.

Súbito um ponto, uma sujeira desse gramado se moveu, leve, imperceptível. Aguardou. No instante seguinte, esse ponto levantou vôo, subiu, subiu para bem perto de seus olhos, passou à sua frente, petulante, descrevendo uma elipse, deliciosa. Salivou, estava com fome.

Deixou-se ficar em frente à janela por quanto tempo? Por que ela demorava tanto?
Abandonada.
Um ruído familiar e querido vindo do corredor encerrou seus pensamentos perdidos, agora mortos. Cruzou ágil, precisa, sem estardalhaço toda a extensão da sala e foi aguardar junto à porta. A chave girava na fechadura. Sua dona chegara. Entrelaçou-se nas suas pernas, pedindo e por fim ganhando o merecido colo: “Está atrasada sabia?”

O presente

Publicado por: Julia em: 21.02.10

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Passava em frente àquela lojinha todos os dias à caminho da escola. Mesmo atrasada aquela vitrine a atraía. Vitrine poluída. Badulaques importados: pelúcias, brincos, bibelôs de resina… Seus olhos mapeavam aquelas coisinhas inúteis e invariavelmente recaíam sobre aquela caixinha.
Pequena, caberia numa palma, embrulhada de branco, fita de cetim igualmente branca. Estava ali há anos, desde que mudara para aquela cidade. Ninguém reparava na sua existência, fora ela. Também quem repararia? Nem parecia à venda. Mas estava. Tinha observado detalhadamente: havia uma linha, como essas de bordado e na sua ponta havia uma etiqueta de preço. Estava virada para trás de forma que não podia ver quanto custava. Nem adiantaria, não tinha dinheiro. Ninguém parecia movê-la para limpá-la, isso a intrigava. Nessa caixinha não se acumulava pó.
Conhecia o Marcos de vista, na escola tinha fama ruim e todos o respeitavam. Ou temiam? Não importa. Nunca tinha trocado sequer um ‘oi’ com esse cara. Ele estava ali de pé, em frente à sua vitrine. Olhando o quê? Não parecia que aquela figura de jeans largos e camiseta preta combinasse com aqueles bichinhos, brinquinhos, coisinhas rosinhas. Sentiu um calafrio ao vê-lo. Não por sentir alguma coisa diferente por ele, longe disso. Ficou contrariada por vê-lo ali na sua vitrine. Começou a andar mais devagar, quem sabe ele iria embora. Ou deveria passar reto pela vitrine? Foi o que decidiu. Iria passar reto.
Olhou fixo para o chão, nem piscava, o rosto ficava assim encoberto pelos longos cabelos anelados, suas passadas eram largas e decididas. Iria passar reto. Passar reto. Não pôde controlar, seu rosto se levantou como de costume quando o vidro da vitrine entrou no seu campo de visão. Estancou. Viu-se parada e voltada para a vitrine. Os olhos correndo até encontrar a sua caixinha. Ah, tão branca. Precisou encontrá-la para seus olhos se acalmarem acariciando aquela coisinha imaculada.
Marcos se manteve alheio à sua presença. Nem deve ter percebido que estava ali. Nem se falaram, afinal não se conheciam, não faziam parte da mesma turma. E quando ele lhe perguntou o que gostaria de ganhar de presente, foi assim de supetão. Mas ela não teve dúvidas. Apontou reto, direto, sequer o olhou, somente a caixinha lhe cabia nos olhos. Ele pôs a mão no bolso e entrou na loja. A menina ficou do lado de fora, vigiando cada movimento do interior. Viu quando o rapaz apontou a caixa, acompanhou o balconista enquando este contornava o balcão, procurava a chave certa, abria as portas de correr e finalmente, a pegava.
Instantes depois aquele pequeno objeto era pousado em sua mão. Seu coração dava pulos. Seu primeiro impulso seria correr obtido a prenda, mas se controlou. Era mais pesado do que aparentava. Balançou-a e escutou, parecia haver algo solto. Ela ria, no máximo da satisfação. Ele experimentou chacoalhar também e arriscou: uma correntinha. Perguntou se a abriria. Fez que não, perderia a graça, preferia conviver com a expectativa.
Marcos desapareceu depois disso, ela nem se importou. Achava que dia menos dia apareceria do mesmo jeito.
Dias depois correu um boato que tinha sido encontrado no matão do Simba, cravado de tiros. Boato, pensou. Ela nunca mais parou diante daquela vitrine. A caixa continua intacta.

O poço

Publicado por: Julia em: 19.02.10

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-  Olhe ali! – apontou ela gritando.
No instante seguinte saltava da bicicleta e corria solta pelo matagal. O irmão seguiu pedalando atrás até, por fim, largar a magrelinha e correr no seu incalço. Agarrou o capuz do moletom e a fez parar.
A menina insistia excitada: – Ali, ali!
Ele pegou sua mão e se aproximaram. A casa há muito ruíra, anos seguidos de pilhagem não deixaram quase nada. A vegetação vulgar tomava conta de tudo. Mais ao fundo, o capim alto disfarçava a boca de tijolos expostos. Como ela tinha percebido? Mal se via de onde estavam.
Primeiro ele espiou cauteloso. Breu. Não foi medo ao certo o que sentiu, mas manteve os pés bem enraizados no solo. A irmã a seu lado pulava tentando ver alguma coisa que não havia. O irmão afinal, enfiou os braços em torno de seu peito e a levantou até a borda, a menina fincou os cotovelos no reboco e se curvou. Um pó desse movimento desenhou círculos de petróleo. A menina riu. E pediu:
- Me dá uma moeda?
- Pra que?
- Prum pedido, oras!
O garoto vasculhou os bolsos e desenterrou duas moedas: uma de dez e uma de vinte e cinco. Olhou de soslaio a menina que piscava os olhos brilhantes. Olhou novamente pra duas moedas e entregou a de dez. A de vinte e cinco não dava, não.
A menina voltou pra posição e de mãos em concha lançou a moeda no nada. A moeda deu duas voltas e desapareceu. Logo depois escutaram um ploc muito baixo. Ele pensou na mãe faxineira e desejou pra ela um trabalho sentada, sonhou também com uma casa melhor, com massa corrida nas paredes, pintada de branco… e pensou no pai, naquele que um dia tinha levado ele pra pescar, queria que voltasse.
Caminharam até a bicicleta, ele perguntou: – O que você pediu? – e ela:
-  Não pode contar senão não acontece!
Ele sorriu diante da crença dela e seguiram pela picada íngreme. Suava e ela, na garupa, brincava com os siriris.

Quando voltaram para casa a mãe estava na cozinha. O barulho de panela de pressão denunciava. A menina correu pra ela e se enrolou na sua cintura, já contando sobre o poço. O irmão se acomodou na cadeira e começou a mexer nas sacolas em cima da mesa. Então ela deu um grito de satisfação:
-  Bombons! Mamãe comprou bombons!
-  É tava em oferta – resumiu a mãe.
-  Era o que eu tinha pedido! – disse, enquanto chacoalhava o pacote.
O irmão arregalou os olhos,  com um leve arrependimento. Devia ter dado a de vinte e cinco.

A menina do colant rosa

Publicado por: Julia em: 19.02.10

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Era tarde de quinta, eu jogava futebol na rua com o Cafú, Lilico e o Beto. Cafú deu uma bicada e a bola foi parar lá em baixo quase na esquina. Fui pegar, foi aí que a vi. Ela passou de colant cor-de-rosa, sainha branca, meia fina, o cabelo preso, todo puxado pra trás. Passou naquele passo que não parecia desse mundo, posso jurar que seus pés não tocavam o chão, quer dizer, claro que tocavam mas só bem de leve, o cimento poeirento nem percebia isso.
Joguei a bola pros garotos, dei uma desculpa e segui a menina. Ela andou, (planou?) mais uns dez metros e desapareceu numa porta de verniz descascado. Fui até lá e espiei. Uma escada íngreme fazia a curva lá em cima. Podia ouvir: uma música, batidas compassadas na madeira e uma voz contando, um, dois… Aula de balé.
Nos dias seguintes marquei ponto na frente daquele sobrado branco enegrecido de fuligem, do outro lado da rua, da janela, podia ver umas figuras repetindo os passos. Descobri que ela fazia aula de terça e quinta.
Enchi o saco da minha mãe para entrar no curso de balé. Ela achou que eu estava variando da cabeça. Por fim aceitou pelo menos ir pedir informações. Fui junto e aproveitei para dar mais uma olhada no lugar. Era uma grande sala sem divisão nenhuma, o piso de madeira lustrosa, uma parede toda de espelhos e nela uma barra corria de ponta a ponta. Havia uma coisa chamada aula de experiência, podia fazer uma aula para ver se tinha jeito. Não era pago, minha mãe ainda perguntou mais uma vez: – Você tem certeza? Fui irredutível. Tinha que pelo menos descobrir o nome dela.
Insisti que fosse numa terça a minha tal aula de experiência. Me enfiei num agasalho azul marinho, colant não ia usar de usar de jeito nenhum, nem tinha, e fui, isto é, fomos. Minha mãe insistiu em ir junto. Me despedi dela na porta. Ela olhou esquisito para mim mais uma vez.
Eu era o único menino. Elas faziam aquela cara, dava pra ver que riam até a alma. A professora, uma mulher comprida , magra feito uma vassoura, me olhou divertido, abriu aquele sorriso de orelha a orelha, pensei que seus dentes fossem cair todos, tamanho foi o sorriso dela. Com certeza eu estava um pimentão. As bochechas queimavam. Nesse instante ela chegou, atravessou toda a sala e foi calçar suas sapatilhas num canto. Podia vê-la de perto, poderia, talvez, falar com ela…
A mulher-vassoura bateu palmas e todas se espalharam pelo chão. Fiquei no canto mais canto que pude encontrar. Tentei me concentrar e não me saí mal no aquecimento. Era fácil esse negócio de balé.
A mulher bateu palmas novamente e todas perfilaram na parede de espelhos. Pousaram a mão na barra, tratei de imitar o gesto. Fiquei no final da fila, ela era umas das primeiras, nem podia vê-la. Daí em diante me esforcei para imitar o que a menina da frente fazia. Tinha que manter os calcanhares juntos, a barriga pra dentro, as costas retas, o queixo levantado, e a bunda dura, como se segurasse uma folha no rego. Já era difícil ficar nessa posição, ainda tinha que levantar uma perna, ou um braço, ora um, ora o outro, ou braços e pernas juntos, uma complicação. Suava em bicas. A professora era dura, gritava e batia com um bastão no chão para marcar o ritmo, dava bronca em todas, menos em mim, acho que estava até esquecida de mim.
A aula estava acabando, mal me agüentava, quando as meninas se juntaram num canto e, começaram a saltar. Sério, tinha algumas que quase atingiam toda a extensão da sala na diagonal. Aí foi a vez dela, prendi a respiração, um, dois, três… quase quatro segundos no ar, acham pouco ?
Estava ainda em estado de suspensão quando ouvi a batida seca no chão. Todas olhavam pra mim, só restava eu e agora elas se agrupavam no outro canto da sala. Reuni as forças do meu corpo magro,  dei um pique e saltei. Até aí tudo bem, culpa foi da meia, não sei se vocês sabem, mas as sapatilhas de balé têm um courinho costurado na sola. E eu lá tinha sapatilha? Na queda bati o calcanhar esquerdo na madeira encerada e senti como se me puxassem para trás. Caí e fiquei espalhado em x feito uma planária. A risada explodiu e ricocheteou nos espelhos. A professora correu e curvou-se sobre o mim, preocupada. Finalmente sentei e olhei em torno, todas riam, menos ela. Desci correndo as escadas e ganhei a rua. Corri, as faces em fogo.
Cheguei no terreno baldio da rua debaixo, empurrei uma tábua da cerca e me joguei no capim alto. As lágrimas rolavam gordas. Por fim me agachei e ali fiquei. Fiquei.
Ouvia o vento. Só levantei a cabeça quando vi a sombra dela sobre mim. Estava ali, de pé, o rosto sério, o cabelo solto. O cabelo solto. Levantei. Ela era mais alta que eu, só um pouco. Aí ela colocou as mãos uma em cada uma das minhas bochechas, meio em baixo das minhas orelhas e puxou meu rosto. Um calor subiu da planta dos meus pés, meus pêlos dos braços e das pernas se arrepiaram, e um zumbido tomou conta da minha cabeça. Mantive meus olhos abertos, ela mantinha os dela fechados e quando me soltou, acho que me empurrou de leve, ela os abriu e sorriu. Sorriu com os olhos, então, virou-se e correu de volta à cerca, seus cabelos ainda fizeram um afago na minha cara, que devia estar bem boba nessa hora.

Palavras

Publicado por: Julia em: 19.02.10

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Palavras são portas.
São facas, são portos.
Me fazem partir.

Palavras são palavras. E são tantas…
Às vezes soltas, às vezes grudadas, fila indiana ou aos borbotões.
Às vezes gritadas, às vezes sussurradas.
Palavras são faladas, ou escritas, às vezes, garrafais.
Em outdoors dizem o que devo tomar, comer ou usar, para ser aquela que gostariam que eu fosse.
Às vezes minúsculas, sujeirinhas que dão preguiça de ler (muitas vezes em contratos de bancos, de imóveis…).
Algumas são bem bonitinhas, tipo: cintilante, ou pirilampo. Onomatopéicas.
Além do som, palavras tem: corpo. Algumas são quadradas, outras redondas… e as cestavadas?
Com arestas, muitas machucam, outras são uma carícia.
Algumas são perfeitas. Como “bunda”. Bun-da. Já ná-de-gas, sei não… nádegas não parece nada daquilo, é muito decente.
É, palavras também têm moral, sentimento, peso e alma.
Palavras são muitas vezes efêmeras, vivem somente um verão, como muita música que tem por aí.
Já as bem escritas  vivem séculos, são lidas, relidas, decifradas e até, veneradas.
Palavras já foram registradas em tecidos delicados, no couro de um animal ou, definitivamente, na pedra.
Mas as que ficam são as que ficaram marcadas na mente, tanto dos que contam, quer dos que ouvem.
Por isso quando for usar (palavras), principalmente se você é do tipo que as jogam ao vento: cuidado. Palavras se voltam contra você.
Seja uma pessoa de palavra, mas não tenha sempre algo a dizer, às vezes o silêncio, diz tudo.

aqui escrevo... expetendis elaboraret nec ut, vim eu cibo noster maluisset. Ei sit dicam soluta percipitur, duo erat takimata ex, brute paulo invenire usu eu.
Seguir

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